domingo, 22 de janeiro de 2017

Comentário a um Soneto: Inspiração


INSPIRAÇÃO

Olhar erguido ao céu, na dor procuro
feliz inspiração para um soneto;
e em riso branco se transforma o preto
dos ais, em que me assombro e me torturo...


Aclara-se um caminho, todo escuro,
ao conservar-se a cruz por amuleto...
Agora me domino, e me prometo
maiores esperanças no futuro.


O desprazer se afasta ao som da lira,
que me devolve a paz e que me enleva,
por mais certeiro o golpe que me fira.


O artista, no que faz, os olhos ceva;
à glória de criar ele se atira,
jato de luz que, altivo, rompe a treva.


                         FREITAS, Eugênio de. Meus Ais: Sonetos, Quadras e Trovas. Livraria São José.                                     Rio de Janeiro, 1973

Bonito, esse Soneto, não é? E é de um poeta brejense. Eu, sinceramente, não vejo nenhuma inferioridade, tanto na forma poética, como no conteúdo propriamente dito, em relação aos sonetos, do Romantismo ou do Parnasianismo. Aliás, uma das características da poesia brejense é essa identificação com os movimentos literários anteriores ao Modernismo. A literatura brejense, pelo que li até agora, não conheceu o Movimento Modernista. Nós podemos resumí-la em duas características principais: O que está escrito em forma de prosa, tem basicamente três assuntos: Literatura ufanista, ou seja, de exaltação da terra, no caso Brejo; Literatura panegírica, ou seja, em louvor a alguém, e Literatura autobiográfica. Já a literatura em verso, além de explorar os temas já citados, expõe uma subjetividade ou um lirismo muito Românticos, daquele romantismo da Segunda Geração, chamada, também, de Mal-do-século, como em Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, e etc.
O Soneto acima é um exemplo disso. Se você prestar atenção verá que o eu lírico é  alguém que sofre, que é assombrado e torturado. Mas não é de uma dor qualquer e sim de uma dor existencial que só é aliviada pela luz da inspiração. Aliviada e não curada. Veja só o primeiro terceto:


"O desprazer se afasta ao som da lira.

que me devolve a paz e que me eleva,

por mais certeira o golpe que me fira."


Quer dizer, algo continua ferindo-lhe apesar da paz trazida pela lira, ou seja, pela inspiração poética.
Para que servem a inspiração e a poesia que é seu fruto? Servem, não para vencer o assombro, a tortura, a dor existencial, mas para transcendê-los, afastando o desprazer trazido por elas e devolvendo a paz apesar do golpe certeiro.
Outra figura interessante usada pelo poeta é a antítese muito usada também na pintura: a luz e a sombra, e sua similar: o branco e o preto. Na primeira estrofe, o eu lírico diz que a inspiração que ele procura transforma o preto dos ais em riso branco; já no primeiro dístico da segunda estrofe ele diz que a cruz que  conserva, aclara um caminho todo escuro; e no último verso do segundo terceto, usa uma metáfora em que o artista no seu ato de criar é um jato de luz que, altivo, rompe a treva e nisto obtém a sua glória.
Podemos retirar, agora, os três termos que são como que o fio condutor e que dar sentido a todo texto: A inspiração, a cruz, e a glória da criação. Assim: O eu lírico, em meio ao sofrimento e a escuridão de sua existência, procura pela inspiração. O que ele leva nessa procura é a cruz (a fé) que como amuleto lhe mostra o caminho e lhe dá esperança e força para continuar; finalmente, ao chegar a inspiração, ele se lança para alcançar a glória da criação como um jato de luz rompendo a treva.
Então, não é bonito? A literatura é isso. Essa competência não só de criar uma forma bonita de se dizer algo, mas também de conseguir carregar de significação as palavras de tal maneira que elas se prestem à interpretação, à reflexão, à contemplação desses múltiplos significados. Agora volte ao soneto e o leia outra vez pensando nesse comentário que fizemos e você verá a diferença em relação à primeira leitura que você fez.

by: Pedro de Sousa Portela.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fenômeno e Consciência

Antes de começarmos a falar do tema proposto nesse texto, que está na área do conhecimento filosófico, gostaríamos de esclarecer que não é nossa intenção seguir rigorosamente esta ou aquela corrente de pensamento, ou nos deter neste ou naquele tratado filosófico, como Antropologia, Cosmologia, Metafísica, etc. O que queremos com os textos filosóficos que venhamos a postar aqui, é provocar o leitor para uma reflexão mais criteriosa sobre coisas que, apesar de serem bem elementares, são fundamentais na aquisição de um sentido mais profundo do mundo e de nós mesmos. Vamos nos esforçar para que os textos sejam bem acessíveis sem, no entanto, perder o teor filosófico.

E sobre o que falaremos hoje? Falaremos sobre fenômeno e consciência. Você já deve ter notado que uma das coisas que mais nos assusta é o caos, a desordem, a aleatoriedade. A procura pela ordem das coisas é tão natural em nós que tornou-se a base do nosso senso comum. O senso comum nada mais é que um hábito adquirido em nossa consciência de passar, automaticamente, da causa para o efeito. Anoiteceu: escurecerá; amanheceu: o sol nascerá; relampejou: trovejará; soltou a pedra: ela cairá; a água ao fogo: ferverá, e assim por diante. Este automatismo de nossa mente, advindo da experiência, é maravilhoso! Sem ele, cada fenômeno ao nosso redor teria um efeito inédito e nos encheria de surpresa pois nunca estaríamos esperando por um desfecho já conhecido. Isso, certamente, nos impossibilitaria de nos adequar ao meio. Fica poeticamente bonito dizer que é preciso viver cada momento de maneira única, como se fosse o último momento de nossas vidas; "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" (Renato Russo). Na prática, no entanto, isso não daria certo, pois o momento em que estou vivendo agora é o resultado de muitos outros que já vivi, dos hábitos e conhecimentos que adquiri, de uma rotina e uma ordem que imprimir ao meu dia-a-dia. Eu não conseguiria, nem que quisesse, desconectá-lo do passado nem deixar de projetá-lo para o futuro. Um momento totalmente desligado, seria um momento totalmente inconsciente, caótico, aleatório; e o que acontecesse nele não faria nenhum sentido.

Até aí, tudo bem, não é? Mas olha só, esse hábito da minha consciência de fazer ligações automáticas de causa e efeito, apesar de ser fundamental, pode trazer, por incrível que pareça, problemas terríveis para aquisição do próprio conhecimento. Porque veja bem, o hábito está na minha consciência e não no fenômeno. Eu me habituei a ver as pedras caírem ao serem soltas. Mas esse é um hábito meu e não das pedras. As pedras não têm hábitos! E se a pedra não caí ao ser solta? A trezentos quilômetros de distância da terra pode-se soltar uma pedra, e ela, ao invés de cair, flutuará. Hoje existem trens, pesando centenas de toneladas que correm flutuado sobre trilhos eletromagnéticos. Eles parecem soltos, mas não caem, apesar do peso. É preciso saber que meu entendimento pode está preso a um hábito, mas os fenômenos só se prendem a leis naturais e tais leis são objetivas, ou seja, não dependem da minha consciência para serem assim ou assado. O problema é que minha necessidade existencial de encontrar ordem nas coisas, tende  me fazer confundir o conteúdo de minha consciência, que pode está viciado pelo hábito, com as leis objetivas que regem os fenômenos.

Quando olhamos para a história da humanidade, vemos o quanto essa confusão causou problemas. Muitas pessoas foram perseguidas, ridicularizadas e até mortas por contradizer o senso comum de um grupo social. Vamos dar um exemplo bem conhecido a todos. Até a Idade Média ninguém colocava em dúvida que o sol despontava pela manhã no oriente e a partir daí ele iria traçar uma trajetória até pô-se no ocidente (inclusive a palavra ocidente, do latim occidere, significa morrer, desaparecer). Quando alguém ousou dizer que o sol não traçava trajetória nenhuma ao redor da terra, que a ordem era justamente o inverso disso, despertou a ira de todos. Giordano Bruno, um dos primeiros a ter tal atrevimento, foi queimado em praça pública no ano de 1600. Copérnico, Kepler e Galileu, que afirmaram o mesmo, não tiveram o mesmo destino, mas foram perseguidos e precisaram ter muita cautela para não morrer.

A história das ciências modernas nada mais é que a história da resistência a esse automatismo do senso comum. E o interessante é notar que, tanto os nossos hábitos mentais como as ciências, procuram a mesma coisa: a ordem por trás dos fenômenos, porque ordem é segurança e é tão bom está seguro, certo, tranquilo.

by: Pedro de Sousa Portela

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Top 8: Sintoma de decadência.

No Jornal Hoje de hoje, em meio a notícias de mais mortes nas penitenciarias brasileiras, houve uma discreta reportagem que me deixou pensativo. Tal reportagem dizia que as oito pessoas mais ricas do planeta detém uma riqueza equivalente a da metade da população mundial, que é cerca de 3 bilhões e seiscentos milhões de pessoas. Veja bem, só oito pessoas. Só incríveis oito pessoas!

Acho que não precisamos ser muito estudiosos ou experts para desconfiarmos que há algo muito errado no mundo capitalista. E , engraçado é que, ao final da reportagem, como para nos consolar, a repórter noticiou que os governos estavam estudando que medidas poderiam ser tomadas a fim de diminuir tamanha desigualdade social. Isso não pode ser sério, evidentemente, mas, mesmo que fosse e os governos encontrassem alguma solução, eles não poderiam aplicá-la. E não poderiam por uma simples realidade: Eles não têm poder para isso. Aliás, aqui está, justamente, o principal ponto no qual os críticos do capitalismo atacam. Os donos do dinheiro, também são, por muitas formas, os que mandam nos governos.

Apesar de a ideologia política do mundo Capitalista ser a democracia, não é isso que acontece na prática. O papel do Estado no atual sistema, não é governar em representação à população, como o sistema democrático dar a entender, mas, na verdade governa-se para atender aos interesses do grande capital. Os agentes desse capital não estão presos a este ou aquele país, mas flutuam como uma entidade onipresente, lucrando onde é possível lucrar, sem nenhum compromisso com as populações exploradas. Isso é o que explica o exorbitante crescimento e concentração de capital nas mãos de tão poucas pessoas, enquanto as populações amargam desemprego, recessão e pobreza em geral.

Quando o Socialismo perdeu força no Leste Europeu e a URSS se esfacelou, muita gente achou ser uma prova de que o Capitalismo era um sistema melhor, aliás, o único bom e viável. Hoje, a opinião é de que a queda de um não comprova a bondade do outro. Na verdade os dois sistemas não passam de formas diferentes de exploração do homem sobre seu semelhante. E, se um sistema sobreviveu ao outro, foi simplesmente por aplicar mecanismos mais eficientes de contenção e anulação das forças políticas e sociais que o criticam e se opõem a tal sistema.
O problema é saber até onde e até quando tais mecanismos funcionarão. Daí, o porque de a notícia do Jornal, apesar de passar quase despercebida, ser tão sintomática. Ela expõe o calcanhar de Aquiles do Capitalismo, a sua deformidade congênita que é a busca irracional pelo lucro, pela acumulação e concentração descontrolada de capital e de bens de produção.

Os meios de comunicação, aliados do poder financeiro, tentam de todas as formas demonstrar que estamos no caminho certo, que problemas há, mas que tudo pode ser solucionado. Que o brasileiro sabe enfrentar qualquer crise. Que  um professor, se não lhe for possível viver com seu salário, ele pode ir vender coco gelado na rua, se também não der certo, ele pode ser gari, não dando certo, pode fazer uma horta, e etc. O importante é que ninguém morre só porque está lascado! O governo, outro que tem que apresentar  desculpas à população e explicar porque se deve trabalhar para os ricos manterem suas margens de lucro, diz que a culpa foi dos governos anteriores, mas que agora é só uma questão de reformar as coisas, e que, embora tenhamos que apertar mais o cinto, será por pouco tempo. Com noventa anos você se aposenta e será só curtição.

Quanto a mim, não me interesso que os ricos sejam ricos ou que deixem de sê-lo, mas fico pensando até quando esse sistema político e econômico vai ter forças para manter o equilíbrio social. E quando ele entrar em colapso e começarem as convulsões, certamente os mais fracos é que sofrerão mais. A história está aí para provar isso. Querem um exemplo? A Reforma Protestante!

Quando a maioria dos príncipes alemães apoiou Lutero em sua reforma religiosa, os camponeses ficaram muito contentes, não porque deixariam de ser católicos, mas porque não aguentavam mais pagar a pesada carga tributária imposta pelo sistema romano. Pensavam que seria menos um na extensa lista de imposto que precisavam pagar, afinal pagavam impostos aos príncipes, ao imperador, ao exército... Acontece que o imperador e os príncipes não tinham intenção nenhuma de aliviar carga tributária de ninguém. Eles queriam livrar-se do papa apenas para desviar para seus próprios bolsos o dinheiro dos impostos que mandavam para Roma. Mas, de inicio, não disseram nada, deixaram os pobres sonhar, afinal precisavam do apoio de todo mundo para implantar a reforma. Foi, então que apareceu um tal de Thomas Muntzer que, ao invés de ficar só sonhando, organizou todos os pobres e camponeses em um grande movimento chamado Anabatismo, e começou a pregar, não só uma reforma religiosa, mas uma reforma social; começou a pregar um cristianismo no qual não haveria nem ricos nem pobres, mas um igualitarismo radical. Então os príncipes viram que era hora de acabar com a festa, que já se estava indo longe demais. Prenderam, torturam e mataram Thomas Muntzer e outros líderes Anabatistas; fizeram guerra aos camponeses e os massacraram matando milhares de cetenas deles. Lutero, apesar de assistir a isso com desgosto, teve de recolher-se e não interferir, afinal sem o apoio dos príncipes sua reforma iria por água abaixo também. Então, houve mudança de sistema na Alemanha? Houve! Mas, quem lucrou com isso? Os pobres? Certamente que não! Pelo contrário, sua situação piorou e muito! É por isso que hoje, ao ver o sistema Capitalista mostrar sinais de decadência, não fico muito animado, afinal, se ele cair - e uma hora irá cair- cairá na cabeça dos mais fracos, isso pode apostar!


domingo, 15 de janeiro de 2017

Educação e Consciência

Qual de nós ainda não foi vítima de algum palestrante que começa seu discurso falando ser preciso formar cidadãos conscientes e críticos? Que o objetivo da educação é esse: Formar cidadão consciente e crítico. Esse é certamente o maior chavão que corre solto em tudo  quanto é reunião, encontro, palestra que se refere à educação. Para mim, ele é a senha para eu começar a cochilar na reunião.
Não é que haja algo de errado com a proposição em si. O problema é que, de tanto ela ser repetida fora de seu ambiente natural, ou seja, sem que se faça referência a base teórica que lhe dá sustentação ou sentido, ela se esvaziou, se erodiu. Tornou-se uma frase oca, ou como se diz, uma frase de efeito sem efeito algum.
Onde está, então, a  base teórica que poderia preencher de sentido tal ditado? Está em Paulo Freire, é claro! Pois, então, deveria ser fácil, afinal, o pensamento de Paulo Freire é como arroz e feijão, conhecidíssimo! Só que não! Primeiro porque o chão no qual trabalha Paulo Freire é o Marxismo. Sem um conhecimento profundo de Marx, derrapamos em Freire. Embora haja, evidentemente muitas diferenças entres eles também.
Bem, então vamos ver se o nosso chavão tem futuro. Primeiro é preciso saber que, tanto para Marx como para Freire, nossa humanidade não é algo que recebemos assim prontinha das mãos de um criador, mas algo que precisa ser construído durante toda vida e essa é, certamente, a principal tarefa de cada pessoa: humanizar-se. A humanização acontece por um processo de Conscientização. E como acontece essa conscientização? Vou dar um exemplo: Imagine um hominídeo, ou homem pré-histórico, como se diz, e um macaco. Os dois estão juntos, próximos a pés de coco muito altos. Eles têm um problema: estão com fome e gostariam muito de comer os cocos, mas precisam colhê-los. O macaco está melhor equipado fisicamente para essa tarefa: os braços longos, os pés com o formado de mãos, o rabo ajudando no equilíbrio, enfim, o macaco, sabemos é uma verdadeira máquina de subir em árvores, mas o homem não. Ele tem mais dificuldades. E quando, depois de meia hora de luta, o homem, todo ralado, chegar com o seu coco, o macaco já terá comido três, no que concluímos que, o macaco aparentemente tem uma vantagem sobre o homem. Mas acontece algo no homem que não acontece no macaco. O homem é capaz de avaliar sua ação, refletir sobre ela, criticá-la. E mais que isso! Ele pode simular internamente formas modificadas, melhoradas em relação a ação anterior que ele tentará colocar em prática na ação posterior. É esse mecanismo, aparentemente simples que faz com que sejamos o que somos hoje, enquanto os macacos continuam sendo o que sempre foram. E, se algum dia, na história da evolução fomos não humanos, passamos a ter a capacidade de sê-lo justamente no momento em que esse dinamismo apareceu. Conscientização é, portanto, essa relação dialética entre ação e reflexão, entre a prática e o pensamento sobre essa prática. É por isso que Marx criticava tanto as linhas de produção das fábricas, nas quais os trabalhadores exerciam tarefas sem compreendê-las e sem refletir sobre elas. Toda vez que alguém exerce um trabalho e não tem a oportunidade ou capacidade de refletir sobre ele, esse alguém deixa de ser humano, coisifica-se.
A educação torna-se  fator de humanização no momento em que ajuda a pessoa a conscientizar-se, ou seja, refletir sobre a sua própria prática e sobre a situação concreta do meio em que vive.
Então, quando alguém vier com o chavão, de que a educação precisa formar cidadãos conscientes, pense que conscientizar-se é humanizar-se e humanizar-se é refletir sobre o que se está fazendo, justamente o contrário de um chavão que é  falar por falar, sem refletir.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Formação de Professores: Alternativas.


Todos nós, professores, sabemos que iniciamos sempre o ano letivo com as chamadas semanas pedagógicas. Muitos professores não gostam. Dizem que não há nada de novo, que já sabem de cor o conteúdo das tais semanas, que é só enrolação, etc. Quanto a mim, o ponto ruim delas está no fato de que com elas as férias acabam e vou ter que me reestruturar para começar a luta de novo! No entanto, sem entrar no mérito das críticas acima, temos que admitir que este é o único momento em que todos da rede escolar nos encontramos,conversamos e acabamos, até, às vezes, inconscientemente, trocando ideias e experiências didáticas e pedagógicas. Falamos entre nós de nossas angústias e dificuldades intra e extra classe e contamos nossas projeções para o ano letivo que inicia. Para mim, isso já é um grande legado de tais semanas, que às vezes não chega a ser mesmo uma semana, mas três ou quatro dias.
O assunto das semanas pedagógicas traz, evidentemente, a questão da formação dos professores. Essa semana, Cláudia Costin, uma colunista da Folha de São Paulo, postou os resultados de uma palestra de um professor de Havard, Thomas Kane, na qual o dito professor afirmava que "parte dos recursos investidos em formação continuada de professores, em vários países, é desperdiçada". Segundo ele, investimentos em cursos motivacionais, mestrados, e doutorados, não estariam causando impacto nenhum na melhoria da qualidade do ensino. Ele aponta, no entanto, três ações que, de forma mais eficiente poderiam, segundo ele, contribuir para melhorar a qualidade do ensino público. Seriam elas: primeiro, mentoria de professores por colegas mais experientes; segundo, um trabalho colaborativo entre docentes de uma mesma escola; e a terceira ação seria um bom uso do estágio probatório como complementação da formação universitária do professor. 
Para falar a verdade, achei a ideia de um professor mais velho tutoriar professores novos muito interessante! Porque, veja bem, ensinar não é só uma questão de conhecer os conteúdos e as didáticas de aplicação, mas existe uma atividade relacional e de interação com os alunos que também é importante e que só a experiência de muito tempo de trabalho vai capacitar o professor nessa tarefa. Os professores novos sofrem muito com isso e se sentem totalmente desamparados em seu trabalho quando são simplesmente "jogados" em uma sala sem o apoio de alguém experiente. Quem já teve um estagiário em sua sala, sabe do que estou falando. Nota-se que a aula dele está planejada nos mínimos detalhes, mas isso não resolve o problema completamente. Sem um bom relacionamento com os alunos, o professor acaba por desenvolver mecanismos de defesa como o autoritarismo e o distanciamento que são altamente prejudiciais à aprendizagem. Ou pode acontecer o que é pior ainda, o professor, frustrado por não se relacionar bem com a turma desenvolver uma baixa auto-estima que o fará detestar a sala de aula e, como resultado, deixar o magistério, ou continuar nele sem gosto nenhum, simplesmente por falta de opção. Então, que tal professores com vinte ou vinte e cinco anos de magistério, serem renumerados para completar sua carreira docente ajudando os jovens professores?
A segunda ação formadora de professores apontada por Thomas Kane também é pertinente porque, vejam só, nenhum professor, diretor ou coordenador pedagógico, por mais eficiente que seja seu trabalho, vai mudar sozinho a realidade de sua escola. É necessário, portanto, o trabalho de colaboração entre os professores. Nós professores, ao invés de, simplesmente taxarmos nossas salas e nossos alunos de serem assim ou assado, deveríamos, planejar, estudar e pesquisar de forma mais cientifica sobre os problemas reais da escola. Nossos alunos deveriam ser matéria prima para nossas pesquisas pedagógicas a fim de aperfeiçoarmos nosso trabalho com eles. Um grupo de professores que também fossem um grupo de pesquisadores, trabalhando em colaboração um com o outro para entender cada vez melhor os problemas e as soluções mais adequadas para sua escola.
Quanto ao estágio probatório, nós sabemos a que ele se resume. Na rede estadual, por exemplo, consiste apenas em uma questionário que o diretor preenche dando uma nota ao professor recém-admitido. Enquanto que ele deveria constituir-se em um itinerário formativo claro e personalizado,como diz Thomas Kane, no qual o professor recebesse uma capacitação estruturada naquilo em que ele realmente vai precisar para para um bom exercício do seu magistério.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Literatura brejense: Para quê e para quem?

Literatura brejense: Para quê e para quem?


Há alguns anos estava eu em São Luis e ao passar por um Sebo chamado Educare (sebo é um local onde, entre outras coisas, se revendem livros velhos e usados), fiquei surpreso e contente ao ver o livro de um escritor brejense. O livro era Meus Ais de Eugênio de Freitas. Comprei-o e, ao voltar, li-o no ônibus. É um livro de trovas e sonetos. Alguns deles, simples e singelos nas imagens e motivos, outros, mais elaborados nos conteúdos e imagens que sugerem. Percebi o enorme esforço do autor em imitar as formas requeridas pelos gêneros Literários. O Livro é de 1973, ano de sua publicação, e o exemplar que encontrei no sebo, está até autografado pelo autor para Edmilson José da Silva, a quem ele chama de "prezado colega" e a quem , evidentemente, eu não tenho a menor ideia de quem seja ou quem seria. De qualquer maneira, o "prezado colega" acabou por descartar o livro autografado em um Sebo para minha alegria e satisfação!
Como professor, no entanto, fico pensando se a literatura produzida por autores brejenses não deveria ter um espaço na grade curricular de nossos jovens e adolescentes. Porque houve e há, sim, escritores brejenses! Nós queremos que nossos alunos sejam leitores e até escritores, mas, o que é um escritor para tal aluno? Certamente, alguém que nasceu no século XIX no Rio de Janeiro e que escreveu livros que o dito aluno  precisa, no máximo, decorar o título para passar na prova. Isso é o que é um escritor para nossos jovens! Será que não seria um estímulo decisivo se o escritor fosse alguém mais próximo, e por isso mesmo, mais real? Não seria bom que nossos jovens pudessem ler livros de pessoas com as quais eles  cruzam nas ruas ou de quem eles já tivessem assistido uma palestra?
É verdade que não devemos prescindir dos autores e livros clássicos nacionais e até internacionais. É muita pobreza não conhecer Machado de Assis ou Graciliano Ramos. Não ler Crime e Castigo de Dostiévski ou A Boa Terra de Pearl Buck é uma pena! Mas será que,  para um brejense, não ler e nem mesmo conhecer Eugênio de Freitas ou Tobias Pinheiro, também não é?
Alguém pode dizer: "Professor, mas a literatura brejense é quase nada! Não tem expressividade nem projeção nenhuma!" E eu lhe pergunto: Você já leu? Todo prestígio de uma literatura depende dos leitores. Se ninguém houvesse lido os livros de Machado de Assis, o que seria da literatura Machadiana? Talvez nem existisse! Toda literatura vive do leitor, da crítica e do trabalho editorial, sem isso, qualquer literatura míngua. Onde estão os leitores, os críticos e os projetos editoriais da literatura brejense? Se não há nenhum desses três aspectos, como vamos querer uma literatura próspera? E, se não lemos nem a literatura minguada que existe, para que quereríamos uma literatura abundante? Para encher estantes?
Verdade é que nossos jovens e adolescentes não conseguem avançar nos estudos por falta de leitura. Perdem seu precioso tempo fazendo atividades com pouco significado para eles e o país gasta dinheiro inutilmente sustentando um sistema escolar infrutífero.

By: Pedro de Sousa Portela.