Antes de começarmos a falar do tema proposto nesse texto, que está na área do conhecimento filosófico, gostaríamos de esclarecer que não é nossa intenção seguir rigorosamente esta ou aquela corrente de pensamento, ou nos deter neste ou naquele tratado filosófico, como Antropologia, Cosmologia, Metafísica, etc. O que queremos com os textos filosóficos que venhamos a postar aqui, é provocar o leitor para uma reflexão mais criteriosa sobre coisas que, apesar de serem bem elementares, são fundamentais na aquisição de um sentido mais profundo do mundo e de nós mesmos. Vamos nos esforçar para que os textos sejam bem acessíveis sem, no entanto, perder o teor filosófico.
E sobre o que falaremos hoje? Falaremos sobre fenômeno e consciência. Você já deve ter notado que uma das coisas que mais nos assusta é o caos, a desordem, a aleatoriedade. A procura pela ordem das coisas é tão natural em nós que tornou-se a base do nosso senso comum. O senso comum nada mais é que um hábito adquirido em nossa consciência de passar, automaticamente, da causa para o efeito. Anoiteceu: escurecerá; amanheceu: o sol nascerá; relampejou: trovejará; soltou a pedra: ela cairá; a água ao fogo: ferverá, e assim por diante. Este automatismo de nossa mente, advindo da experiência, é maravilhoso! Sem ele, cada fenômeno ao nosso redor teria um efeito inédito e nos encheria de surpresa pois nunca estaríamos esperando por um desfecho já conhecido. Isso, certamente, nos impossibilitaria de nos adequar ao meio. Fica poeticamente bonito dizer que é preciso viver cada momento de maneira única, como se fosse o último momento de nossas vidas; "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" (Renato Russo). Na prática, no entanto, isso não daria certo, pois o momento em que estou vivendo agora é o resultado de muitos outros que já vivi, dos hábitos e conhecimentos que adquiri, de uma rotina e uma ordem que imprimir ao meu dia-a-dia. Eu não conseguiria, nem que quisesse, desconectá-lo do passado nem deixar de projetá-lo para o futuro. Um momento totalmente desligado, seria um momento totalmente inconsciente, caótico, aleatório; e o que acontecesse nele não faria nenhum sentido.
Até aí, tudo bem, não é? Mas olha só, esse hábito da minha consciência de fazer ligações automáticas de causa e efeito, apesar de ser fundamental, pode trazer, por incrível que pareça, problemas terríveis para aquisição do próprio conhecimento. Porque veja bem, o hábito está na minha consciência e não no fenômeno. Eu me habituei a ver as pedras caírem ao serem soltas. Mas esse é um hábito meu e não das pedras. As pedras não têm hábitos! E se a pedra não caí ao ser solta? A trezentos quilômetros de distância da terra pode-se soltar uma pedra, e ela, ao invés de cair, flutuará. Hoje existem trens, pesando centenas de toneladas que correm flutuado sobre trilhos eletromagnéticos. Eles parecem soltos, mas não caem, apesar do peso. É preciso saber que meu entendimento pode está preso a um hábito, mas os fenômenos só se prendem a leis naturais e tais leis são objetivas, ou seja, não dependem da minha consciência para serem assim ou assado. O problema é que minha necessidade existencial de encontrar ordem nas coisas, tende me fazer confundir o conteúdo de minha consciência, que pode está viciado pelo hábito, com as leis objetivas que regem os fenômenos.
Quando olhamos para a história da humanidade, vemos o quanto essa confusão causou problemas. Muitas pessoas foram perseguidas, ridicularizadas e até mortas por contradizer o senso comum de um grupo social. Vamos dar um exemplo bem conhecido a todos. Até a Idade Média ninguém colocava em dúvida que o sol despontava pela manhã no oriente e a partir daí ele iria traçar uma trajetória até pô-se no ocidente (inclusive a palavra ocidente, do latim occidere, significa morrer, desaparecer). Quando alguém ousou dizer que o sol não traçava trajetória nenhuma ao redor da terra, que a ordem era justamente o inverso disso, despertou a ira de todos. Giordano Bruno, um dos primeiros a ter tal atrevimento, foi queimado em praça pública no ano de 1600. Copérnico, Kepler e Galileu, que afirmaram o mesmo, não tiveram o mesmo destino, mas foram perseguidos e precisaram ter muita cautela para não morrer.
A história das ciências modernas nada mais é que a história da resistência a esse automatismo do senso comum. E o interessante é notar que, tanto os nossos hábitos mentais como as ciências, procuram a mesma coisa: a ordem por trás dos fenômenos, porque ordem é segurança e é tão bom está seguro, certo, tranquilo.
by: Pedro de Sousa Portela

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