segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Top 8: Sintoma de decadência.

No Jornal Hoje de hoje, em meio a notícias de mais mortes nas penitenciarias brasileiras, houve uma discreta reportagem que me deixou pensativo. Tal reportagem dizia que as oito pessoas mais ricas do planeta detém uma riqueza equivalente a da metade da população mundial, que é cerca de 3 bilhões e seiscentos milhões de pessoas. Veja bem, só oito pessoas. Só incríveis oito pessoas!

Acho que não precisamos ser muito estudiosos ou experts para desconfiarmos que há algo muito errado no mundo capitalista. E , engraçado é que, ao final da reportagem, como para nos consolar, a repórter noticiou que os governos estavam estudando que medidas poderiam ser tomadas a fim de diminuir tamanha desigualdade social. Isso não pode ser sério, evidentemente, mas, mesmo que fosse e os governos encontrassem alguma solução, eles não poderiam aplicá-la. E não poderiam por uma simples realidade: Eles não têm poder para isso. Aliás, aqui está, justamente, o principal ponto no qual os críticos do capitalismo atacam. Os donos do dinheiro, também são, por muitas formas, os que mandam nos governos.

Apesar de a ideologia política do mundo Capitalista ser a democracia, não é isso que acontece na prática. O papel do Estado no atual sistema, não é governar em representação à população, como o sistema democrático dar a entender, mas, na verdade governa-se para atender aos interesses do grande capital. Os agentes desse capital não estão presos a este ou aquele país, mas flutuam como uma entidade onipresente, lucrando onde é possível lucrar, sem nenhum compromisso com as populações exploradas. Isso é o que explica o exorbitante crescimento e concentração de capital nas mãos de tão poucas pessoas, enquanto as populações amargam desemprego, recessão e pobreza em geral.

Quando o Socialismo perdeu força no Leste Europeu e a URSS se esfacelou, muita gente achou ser uma prova de que o Capitalismo era um sistema melhor, aliás, o único bom e viável. Hoje, a opinião é de que a queda de um não comprova a bondade do outro. Na verdade os dois sistemas não passam de formas diferentes de exploração do homem sobre seu semelhante. E, se um sistema sobreviveu ao outro, foi simplesmente por aplicar mecanismos mais eficientes de contenção e anulação das forças políticas e sociais que o criticam e se opõem a tal sistema.
O problema é saber até onde e até quando tais mecanismos funcionarão. Daí, o porque de a notícia do Jornal, apesar de passar quase despercebida, ser tão sintomática. Ela expõe o calcanhar de Aquiles do Capitalismo, a sua deformidade congênita que é a busca irracional pelo lucro, pela acumulação e concentração descontrolada de capital e de bens de produção.

Os meios de comunicação, aliados do poder financeiro, tentam de todas as formas demonstrar que estamos no caminho certo, que problemas há, mas que tudo pode ser solucionado. Que o brasileiro sabe enfrentar qualquer crise. Que  um professor, se não lhe for possível viver com seu salário, ele pode ir vender coco gelado na rua, se também não der certo, ele pode ser gari, não dando certo, pode fazer uma horta, e etc. O importante é que ninguém morre só porque está lascado! O governo, outro que tem que apresentar  desculpas à população e explicar porque se deve trabalhar para os ricos manterem suas margens de lucro, diz que a culpa foi dos governos anteriores, mas que agora é só uma questão de reformar as coisas, e que, embora tenhamos que apertar mais o cinto, será por pouco tempo. Com noventa anos você se aposenta e será só curtição.

Quanto a mim, não me interesso que os ricos sejam ricos ou que deixem de sê-lo, mas fico pensando até quando esse sistema político e econômico vai ter forças para manter o equilíbrio social. E quando ele entrar em colapso e começarem as convulsões, certamente os mais fracos é que sofrerão mais. A história está aí para provar isso. Querem um exemplo? A Reforma Protestante!

Quando a maioria dos príncipes alemães apoiou Lutero em sua reforma religiosa, os camponeses ficaram muito contentes, não porque deixariam de ser católicos, mas porque não aguentavam mais pagar a pesada carga tributária imposta pelo sistema romano. Pensavam que seria menos um na extensa lista de imposto que precisavam pagar, afinal pagavam impostos aos príncipes, ao imperador, ao exército... Acontece que o imperador e os príncipes não tinham intenção nenhuma de aliviar carga tributária de ninguém. Eles queriam livrar-se do papa apenas para desviar para seus próprios bolsos o dinheiro dos impostos que mandavam para Roma. Mas, de inicio, não disseram nada, deixaram os pobres sonhar, afinal precisavam do apoio de todo mundo para implantar a reforma. Foi, então que apareceu um tal de Thomas Muntzer que, ao invés de ficar só sonhando, organizou todos os pobres e camponeses em um grande movimento chamado Anabatismo, e começou a pregar, não só uma reforma religiosa, mas uma reforma social; começou a pregar um cristianismo no qual não haveria nem ricos nem pobres, mas um igualitarismo radical. Então os príncipes viram que era hora de acabar com a festa, que já se estava indo longe demais. Prenderam, torturam e mataram Thomas Muntzer e outros líderes Anabatistas; fizeram guerra aos camponeses e os massacraram matando milhares de cetenas deles. Lutero, apesar de assistir a isso com desgosto, teve de recolher-se e não interferir, afinal sem o apoio dos príncipes sua reforma iria por água abaixo também. Então, houve mudança de sistema na Alemanha? Houve! Mas, quem lucrou com isso? Os pobres? Certamente que não! Pelo contrário, sua situação piorou e muito! É por isso que hoje, ao ver o sistema Capitalista mostrar sinais de decadência, não fico muito animado, afinal, se ele cair - e uma hora irá cair- cairá na cabeça dos mais fracos, isso pode apostar!


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