INSPIRAÇÃO
Olhar erguido ao céu, na dor procuro
feliz inspiração para um soneto;
e em riso branco se transforma o preto
dos ais, em que me assombro e me torturo...
Aclara-se um caminho, todo escuro,
ao conservar-se a cruz por amuleto...
Agora me domino, e me prometo
maiores esperanças no futuro.
O desprazer se afasta ao som da lira,
que me devolve a paz e que me enleva,
por mais certeiro o golpe que me fira.
O artista, no que faz, os olhos ceva;
à glória de criar ele se atira,
jato de luz que, altivo, rompe a treva.
FREITAS, Eugênio de. Meus Ais: Sonetos, Quadras e Trovas. Livraria São José. Rio de Janeiro, 1973
Bonito, esse Soneto, não é? E é de um poeta brejense. Eu, sinceramente, não vejo nenhuma inferioridade, tanto na forma poética, como no conteúdo propriamente dito, em relação aos sonetos, do Romantismo ou do Parnasianismo. Aliás, uma das características da poesia brejense é essa identificação com os movimentos literários anteriores ao Modernismo. A literatura brejense, pelo que li até agora, não conheceu o Movimento Modernista. Nós podemos resumí-la em duas características principais: O que está escrito em forma de prosa, tem basicamente três assuntos: Literatura ufanista, ou seja, de exaltação da terra, no caso Brejo; Literatura panegírica, ou seja, em louvor a alguém, e Literatura autobiográfica. Já a literatura em verso, além de explorar os temas já citados, expõe uma subjetividade ou um lirismo muito Românticos, daquele romantismo da Segunda Geração, chamada, também, de Mal-do-século, como em Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, e etc.
O Soneto acima é um exemplo disso. Se você prestar atenção verá que o eu lírico é alguém que sofre, que é assombrado e torturado. Mas não é de uma dor qualquer e sim de uma dor existencial que só é aliviada pela luz da inspiração. Aliviada e não curada. Veja só o primeiro terceto:
"O desprazer se afasta ao som da lira.
que me devolve a paz e que me eleva,
por mais certeira o golpe que me fira."
Quer dizer, algo continua ferindo-lhe apesar da paz trazida pela lira, ou seja, pela inspiração poética.
Para que servem a inspiração e a poesia que é seu fruto? Servem, não para vencer o assombro, a tortura, a dor existencial, mas para transcendê-los, afastando o desprazer trazido por elas e devolvendo a paz apesar do golpe certeiro.
Outra figura interessante usada pelo poeta é a antítese muito usada também na pintura: a luz e a sombra, e sua similar: o branco e o preto. Na primeira estrofe, o eu lírico diz que a inspiração que ele procura transforma o preto dos ais em riso branco; já no primeiro dístico da segunda estrofe ele diz que a cruz que conserva, aclara um caminho todo escuro; e no último verso do segundo terceto, usa uma metáfora em que o artista no seu ato de criar é um jato de luz que, altivo, rompe a treva e nisto obtém a sua glória.
Podemos retirar, agora, os três termos que são como que o fio condutor e que dar sentido a todo texto: A inspiração, a cruz, e a glória da criação. Assim: O eu lírico, em meio ao sofrimento e a escuridão de sua existência, procura pela inspiração. O que ele leva nessa procura é a cruz (a fé) que como amuleto lhe mostra o caminho e lhe dá esperança e força para continuar; finalmente, ao chegar a inspiração, ele se lança para alcançar a glória da criação como um jato de luz rompendo a treva.
Então, não é bonito? A literatura é isso. Essa competência não só de criar uma forma bonita de se dizer algo, mas também de conseguir carregar de significação as palavras de tal maneira que elas se prestem à interpretação, à reflexão, à contemplação desses múltiplos significados. Agora volte ao soneto e o leia outra vez pensando nesse comentário que fizemos e você verá a diferença em relação à primeira leitura que você fez.
by: Pedro de Sousa Portela.

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