domingo, 12 de março de 2017

DO CAOS AO COSMO

Estou vindo do Facebook. Estive lá pelo menos meia hora e não publiquei, compartilhei nem sequer comentei nada! Só fui rolando o mouse e assistindo aqui e ali um vídeo, li as headlines  e comentários aleatoriamente. Há dias em que estou assim, com o espírito amofinado, de forma que não me trevo a interferir na opinião ou na sensibilidade de ninguém. Deixo as coisas apresentarem-se como são. O máximo que faço é analisá-las e deixá-las ser. Ah! antes que me esqueça, a palavra espírito que usei acima, não está aí em sentido religioso. Senão que a empreguei como a empregou o filósofo Nietzsche em seus escritos, ou seja, o meu espírito é o que há de original em mim, é o que me separa do resto do mundo e, ao mesmo tempo, o que me mantém em contato  com ele.
Pois bem, mas falava do facebook. Observando as postagens assim, como vêm, uma enfieirada à outra, parecem um caos de informações, provocações, sugestões, apelos, declarações, homenagens, exibições, recordações e etc., no entanto podemos rastrear alguns padrões e até tipificá-los.
O primeiro tipo vou chamá-lo de narcisista ou egocêntrico. É formado em sua maioria pelos adolescentes, embora haja muitos adultos enquadrados nele. Aqui o foco é mostrar-se, é chamar a atenção para si, portanto está recheado de selfs e de frases bonitas. Há um grande  esforço para mostrar-se original nas ideias e na linguagem.
Depois temos o tipo politizado. São os que mais postam  vídeos. O foco é veicular e formar opiniões. O grande desafio desse grupo é manter-se atualizado em relação ao cenário político, pois o acúmulo de acontecimentos dos últimos tempos é de deixar qualquer um atordoado, de modo que, o que se disse sobre política pela manhã, já é osso branco à tarde.
Temos ainda um grupo que vou chamá-los de filantropos ou humanistas. Estes tentam mostrar o lado bom e o lado ruim da humanidade. Geralmente postam vídeos que nos chocam ou nos sensibilizam. É a criança ou o animal maltratado; é alguém distribuindo comida para as crianças famintas na África; é a solidariedade com os refugiados e etc.
Finalmente, temos os que tratam de assuntos religiosos, quer a favor ou contra. Os religiosos, portanto, aqueles a favor, vou chamá-los  de o grupo do amém. Isso porque tudo que postam pedem para você comentar com um amém. Às vezes vem até uma ameaçazinha de castigo se você não comentar. Já os que são contra ou que criticam os religiosos, geralmente os acusam de charlatões e tentam mostrar por meio de vídeos e comentários, a suposta falsidade dos milagres e das boas intenções dos pastores em relação aos fies.
Bem, certamente esses tipos que apontei aqui não são formados por grupos totalmente separados. Há muitos que podem pertencer a mais de um tipo e certamente há tipos que nem apontei aqui. Quero deixar claro que não quis fazer nem um julgamento de valor em relação a nenhum tipo analisado, pois como já disse, hoje estou com gosto só para analisar e deixar estar.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O NOVO ENSINO MÉDIO: CRÍTICAS

Nesta quinta-feira (16), o presidente Michael Temer sancionou a Reforma do Ensino Médio, ou "Novo Ensino Médio" como se convencionou dizer.
Até agora estou tentando visualizar como será o rosto dessa reforma depois que for implantada. Não como ela está formulada na lei, mas como ela ficará realmente em minha escola. Porque a lei, certamente trará mudanças, mas haverá sempre uma distância entre o que ela diz e o que, na verdade, se fará. De modo que, o problema não são as transformações que a lei propõe, mas as deformações que resultam do encontro de suas exigências com as deficiências e conveniências físicas, políticas, econômicas e culturais nas quais o sistema está submerso.
Com isso não quero dizer que a reforma não seja uma coisa boa. Afinal  algo tinha que acontecer pois o Ensino Médio não poderia continuar pela força da inércia por tempo indeterminado. O que temo, e o Temer deveria temer também, (desculpem-me o trocadilho), é que, além de não melhorar em nada, a tal reforma acabe por jogar mais descrédito em uma etapa tão crucial da formação das jovens gerações.
Críticas a essa reforma não faltam, e o pior é que muitas delas fazem todo sentido. A seguir vamos comentar algumas que são mais pertinentes.
Primeiro, a questão da Base Curricular Comum, ou seja, aquela parte que é obrigatória a todos. Ela será reduzida a apenas 60% da grade curricular. Enfim, só Língua Portuguesa e Matemática serão realmente obrigatórias. Os outros 40% consistirão nas chamadas áreas de aprofundamento. Essa será a parte flexível e consistirá em cinco áreas: Linguagens, Matemáticas, Ciências da Natureza, Humanas e Formação Técnica. São essas áreas que, em tese, o aluno poderá escolher. Digo em tese, porque as escolas e redes de ensino não serão obrigadas a oferecer todas elas. Ora, se tais escolas ou redes de escolas, as estaduais, no caso, não tiverem como oferecer, ou pelo menos inventarem a desculpa de que não podem oferecer mais que uma, como o aluno poderá escolher? E ainda tem mais, está totalmente indefinido como a base curricular comum vai tratar essas áreas de aprofundamento! Há, também, quem desconfie da real capacidade de adolescentes de 14 anos escolher tais áreas, uma vez que não sabem nada a respeito delas. O que acontecerá, na prática será uma contínua desistência de muitos alunos de uma determinada área para outra, (e isso se houver outra), o que gerará um novo tipo de desistência e o prolongamento do curso por tempo indeterminado para tais alunos.
Falamos das áreas, agora vamos falar das disciplinas, porque aqui também temos problemas.O primeiro texto da lei nem sequer falava em Educação Física, Artes, Sociologia e Filosofia. Certamente, por causa da imediata reação de muitos setores das Universidades, o texto aprovado voltou a falar nessas disciplinas, mas se elas serão ensinadas, ficará a cargo, mais uma vez, das redes e escolas, em outras palavras, serão como um Ensino Religioso da vida. Porque, veja bem, com a obrigatoriedade no currículo, já existe um total desprestígio dessas disciplinas, imagine, então, não havendo mais tal obrigação! Será  certamente sua extinção de vez.
No documento assinado por Temer nesta quinta-feira, as disciplinas Sociologia e Filosofia nem sequer são tratadas mais como tal.Elas são tratadas como "estudos e práticas" que podem ocorrer, vejam bem, podem, porque dependerá da rede de ensino, podem ocorrer não como disciplinas separadas, mas integradas em outras. Na prática, será simplesmente o fim delas no currículo.
Vamos falar de carga horária, então! O Novo Ensino Médio de 800 horas passará a ter 1400 horas anuais e de 4 horas para 5 horas diárias. Os Estados irão receber, segundo o Ministro da Educação, ajuda financeira para, aos poucos irem implantando 7 horas diárias, é o chamado "ensino integral". O que há de estranho nessa carga horária é o fato de que, enquanto ela quase dobra o tempo, metade das disciplinas deixam de ser obrigatórias, ou seja, enquanto o tempo do curso se expande, o número de disciplinas se contrai.
Por fim, outro ponto que chama atenção dos críticos, é a possibilidade de complementação do Ensino Médio com o ensino à distância. A crítica é que isso sirva para os Estados diminuir os gastos  e oferecer um ensino precário, tipo telecurso 2000 que inclusive, já aconteceu aqui no Maranhão tempos atrás e que foi o que sabemos: Havia um aparelho de TV em algum lugar. Em determinado momento, alguém, que não precisava ser professor, aparecia com uma porção de fitas de vídeo K7 debaixo do braço, colocava-as lá no aparelho e deixava rodar até terminar, depois, recolhia as tais fitas e ia embora. Esse era o Telecurso.
Bom, esperamos que, afinal, não seja nada disso! Eu não quero fazer o jogo do "Quanto pior, melhor", mas essas críticas são importantes para ficarmos de olhos abertos, já que, para a aprovação da lei não houve debate, que pelo menos haja, agora, na sua implantação.

by: Pedro de Sousa Portela

domingo, 12 de fevereiro de 2017

FREUD E A EDUCAÇÃO.


Nós estamos acostumados a ligar a figura de Freud e os frutos de seu trabalho, a Psicanálise, à área dos  procedimentos clínicos, aos transtornos psicológicos e às técnicas e terapias de livre associação de ideias, etc. No entanto, existe uma grande implicação pedagógica nos estudos freudianos que, desde muito tempo, têm chamado atenção dos estudiosos.

Quando eu era estudante de filosofia, em Brasília, na década de 90, alguns monges Beneditinos estudavam em minha sala, e eu tornei-me bastante amigo deles. Então, um dia, fui convidado por eles a participar de um grupo de estudo que acontecia todo sábado, à tarde, no mosteiro que ficava e ainda fica, a uns quinhentos metros do seminário em que eu morava. Fui e, para minha surpresa, estava-se a estudar Freud. Minha surpresa se explica, pelo fato de a Igreja Católica ter tido sempre uma certa desconfiança em relação à Freud e à Psicanálise. E não é sem razão, uma vez que Freud, em suas teorias, tentou demonstrar a necessidade de se superar a religião, que foi qualificada por ele como uma espécie de neurose coletiva, provocada pela consciência que temos de nossa inexorável finitude, ou seja, a incapacidade que nossa consciência tem de lidar com a certeza de que vamos morrer, causa em nós um transtorno. Tal transtorno, segundo Freud, estaria na origem do sentimento religioso. Em outras palavras, a religião, para Freud  seria só um sintoma de um transtorno psicológico e que a Psicanálise poderia curá-lo perfeitamente. Inclusive ele escreveu um livro: O Futuro de uma Ilusão, no qual, tal tese é desenvolvida. Evidentemente que a Igreja Católica não gostou nada desse livro, tanto que, por um bom tempo, proibiu que ele fosse lido nos seminários de formação do clero.

Bem, mas eu estava dizendo então, que os monges de Brasília, na década de 90, não só liam como faziam grupos de estudos para debater as teorias freudianas, e contava tal história para dizer que foi em tais grupos que percebi, pela primeira vez, a importância da Psicanálise para a educação.

Freud não escreveu textos relacionados diretamente à educação, mas sabe-se que ele conhecia bem o impacto de suas teorias nesse campo, tanto que deixa à Melanie Klein e à Anna Freud, sua filha, o encargo de aplicar os resultados de seu modelo metapsicológico ao campo da educação.

E em que a Psicanálise se aplica à educação? Ora, em muitos pontos! Podemos citar, por alto, a teoria das fases da criança; o conceito de sedução precoce; a ideia da sexualidade infantil; o complexo de Édipo; enfim, é difícil se encontrar um texto em Freud que não faça uma referência à infância e que, embora indiretamente, não tenha uma aplicação à educação.

Mas, aqui, não vamos nos deter em nenhum desses pontos especificamente, senão que, vamos nos deter em sua tese principal sobre o ser humano e que tem a ver com o principio do prazer e o principio da realidade, sua noção de liberdade, amor próprio e educabilidade.
Vamos partir da seguinte premissa: Todo nosso aparelho psíquico está regido, regulado, pelo princípio do prazer. O que isso quer dizer? Quer dizer que, nossas ações, nossos sentimentos, nosso pensamento, enfim, tudo que estrutura nossa subjetividade, encontra seu ponto de equilíbrio na busca do prazer e na evitação do desprazer. Por via de regra, ninguém quer o mal, o ruim, o pior, etc. Em seus Ensaios de Psicanálise Aplicada Freud diz:
"Aparentemente, o conjunto do nosso aparelho psíquico tem o propósito de procurar o prazer e evitar o desprazer; ele é regido, automaticamente pelo princípio do prazer" (FREUD, 1993, p. 13). 

E em outro livro seu, intitulado O mal-estar da civilização, ele diz: 
"Os homens querem ser felizes e assim permanecer. Essa aspiração tem duas faces, um propósito negativo e um propósito positivo: de um lado evitar a dor e do outro buscar um gozo intenso." (FREUD, 1971, p. 20)
 Freud observa que a interdição persistente e sistemática dessa inclinação natural ao prazer é a causa de todas as neuroses e transtornos psicológicos  aos quais uma pessoa possa ser acometida. Partindo-se disso, poderia se pensar que uma educação para ser autêntica, deveria reconhecer e curvar-se a esse princípio regulador que é o prazer. Uma educação que frustrasse a realização do prazer do indivíduo, seria no mínimo patológica, uma vez que estaria promovendo todo tipo de neurose e até psicoses no educando. A pedagogia deveria encontrar uma forma de evitar qualquer tipo de frustração e repressão e promover uma harmonia espontânea dos prazeres e dos desejos inter-humanos. E, afinal, não é isso o que tem proposto pelo menos boa parte dos nossos pedagogos?

  Mas Freud não acredita nessa hipótese. E por quê? Porque, para ele, é impossível conceber uma educação não repressiva e apoiada unicamente no princípio do prazer, e isso por múltiplas causas que passamos a enumerar agora: primeiro, o principio do prazer não pode se constituir em um objetivo, porque ele sempre acontece em uma situação de desequilíbrio e tensão progressiva. Por exemplo, o prazer de comer acontece em quem está com fome. A fome é uma situação de desequilíbrio e de tensão pela qual está passando o organismo. Quando o indivíduo procura o alimento, na verdade ele está procurando restabelecer esse equilíbrio no organismo. Uma vez reequilibrado, passa a fome e com ela vai-se também o prazer de comer. A pessoa pode até continuar comendo depois de saciado, mas isso não lhe trará mais prazer nenhum. Isso é o que chamamos de "insuficiência interna do princípio do prazer". Sobre isso, Freud diz:
"O que se nomeia por felicidade, em sentido mais estrito, é resultado de uma satisfação repentina de necessidades que alcançaram alta-tensão e que, por sua própria natureza, só é possível sob a forma de fenômeno episódico. Toda persistência desse estado pelo princípio do prazer gera apenas um bem está um tanto superficial... Dessa maneira, nossas faculdades de felicidade estão limitadas pela nossa constituição". (idem, pp.20 e 21).
Fica claro, portanto que não podemos colocar o prazer como principio sobre o qual se deva edificar a educação de alguém pois, devido sua instabilidade e desequilíbrio estruturais, uma civilização não pode se sustentar. Bem, agora chegamos a um dilema: Se oferecermos uma educação ao indivíduo frustrando-lhe ou inibindo suas pulsões naturais para o prazer, podemos desequilibrá-lo psicologicamente e torná-lo um neurótico; no entanto, se, em nosso ato de educar, não houver qualquer limitação, ou barreira que impeça o indivíduo  de realizar livremente seus impulsos, não poderemos construir uma sociedade. Ou seja, se, ao principio do prazer, não opusermos o principio da realidade, não poderemos construir uma civilização equilibrada. O que se deve fazer, então?

A isso, Freud responde  ser um falso dilema, uma vez que não há contradição nenhuma entre o princípio do prazer, que estrutura a psicologia humana e o principio da realidade que estrutura a civilização. E por quê? Porque o principio da realidade não é algo que está aí para acabar com o prazer, mas para regulá-lo e tornar inclusive sua realização mais viável e segura. Numa sociedade em que se estabelecesse só o principio do prazer, logo entraria em colapso e caos, gerando o assassinato, a dor e a destruição que são opostos ao prazer, ou seja, numa sociedade do prazer não pode haver prazer nenhum. 

Vamos ver então, um exemplo: Esses dias, a policia militar do Espirito Santo recolheu-se nos quartéis, deixando de fazer seu trabalho que é inibir o crime. Logo começaram os assassinatos, os saques às lojas e o vandalismo em geral, o que gerou na população o medo e a insegurança. Mas será que não seria bom sem a polícia? Nós poderíamos pegar o que quiséssemos nas lojas e shoppings e simplesmente levar para casa; poderíamos nos armar e impor nossa vontade nas ruas, submetendo os desarmados ao nosso bel-prazer! No entanto, está muito claro que isso não pode acontecer. Que a falência do Estado implicaria na destruição inclusive daqueles que o destroem.

Parece ficar provado com isso, que a interdição, o limite, a lei devem funcionar, não como algo oposto ao gozo, mas para a própria garantia desse. Mas fica então, uma última questão no ar, se voltarmos ao exemplo no caso do Estado do Espirito Santo: Por que apenas uma pequena parcela da população praticou crimes como saques, roubos e etc.? Se o principio da realidade, representado pela polícia, estava suspenso, por que o principio do prazer não tomou conta de todos, mas apenas de alguns?  Aqui é que entra um outro conceito importante na teoria de Freud: a Educabilidade. A Educabilidade nada mais é que a faculdade que todo indivíduo tem de internalizar o principio da realidade. Porque podemos pensar que, enquanto o principio do prazer é algo interior ao sujeito, o principio da realidade seja algo que venha de fora, que se impõe ao sujeito.  E seria realmente assim se não houvesse educabilidade, ou seja se não fosse possível que a lei se tornasse algo radicado na própria subjetividade do sujeito, de tal modo que ele não obedeça uma lei, só porque lhe foi imposta de fora, mas por uma tomada de consciência interna. Exemplo: Você sempre mandou seu filho encher com água as jarras que estão secas e colocá-las na geladeira. Isso, em um primeiro momento, é tomado como uma imposição externa regida pelo principio da realidade. No entanto, nem sempre será assim, pois chegará o momento que seu filho, ao ver as jarras vazias, as encherá, não porque você repetiu a ordem, mas porque esta ordem estará internalizada, tornando-se uma necessidade interna do seu equilíbrio psicológico. Seu filho, ao ver as jarras vazias será tomado por um desconforto, um desequilíbrio psicológico que será superado somente pela execução da tarefa e do dever internalizado. Isso quer dizer que, educamos não só porque somos capazes de educar, mas porque as pessoas são capazes de serem educadas. Senão seria necessário repetir a mesma ordem a alguém ad aeternum.

Podemos, então voltar, e responder porque nem todo mundo saiu às ruas de Vitória do Espírito Santo para roubar e saquear, embora não houvesse polícia nas ruas. Porque, embora faltasse a lei imposta exteriormente pelo Estado de Direito, ela continuou a existir em todos aqueles que, por um processo educacional levado a cabo ou pela família, ou pela escola, ou pela Igreja, e etc., a tinham internalizado, de modo que, se perguntássemos a Freud, qual o papel da educação, ele diria que consiste na viabilização desse processo de internalização do principio da realidade no sujeito.

É claro que para Freud isso é possível não por um altruísmo do educando, ou por qualidades espirituais que ele possa ter, mas como uma necessidade egoística, ou narcisista de adaptação à realidade, ou seja, uma espécie de amor próprio em que sujeito troca a capacidade de realizar seus instintos primitivos e caóticos, sem segurança nenhuma, para desfrutar de um prazer socializado que é limitado, mas seguro e duradouro.

by: Pedro de Sousa Portela.

As fontes citadas no texto foram:

FREUD, S. Essais de Psychanalyses Appliqée, Paris, Gallimard, 1993.
FREUD, S. O mal-estar da civilização, Paris, PUF., 1971.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Comentário a um Soneto: Inspiração


INSPIRAÇÃO

Olhar erguido ao céu, na dor procuro
feliz inspiração para um soneto;
e em riso branco se transforma o preto
dos ais, em que me assombro e me torturo...


Aclara-se um caminho, todo escuro,
ao conservar-se a cruz por amuleto...
Agora me domino, e me prometo
maiores esperanças no futuro.


O desprazer se afasta ao som da lira,
que me devolve a paz e que me enleva,
por mais certeiro o golpe que me fira.


O artista, no que faz, os olhos ceva;
à glória de criar ele se atira,
jato de luz que, altivo, rompe a treva.


                         FREITAS, Eugênio de. Meus Ais: Sonetos, Quadras e Trovas. Livraria São José.                                     Rio de Janeiro, 1973

Bonito, esse Soneto, não é? E é de um poeta brejense. Eu, sinceramente, não vejo nenhuma inferioridade, tanto na forma poética, como no conteúdo propriamente dito, em relação aos sonetos, do Romantismo ou do Parnasianismo. Aliás, uma das características da poesia brejense é essa identificação com os movimentos literários anteriores ao Modernismo. A literatura brejense, pelo que li até agora, não conheceu o Movimento Modernista. Nós podemos resumí-la em duas características principais: O que está escrito em forma de prosa, tem basicamente três assuntos: Literatura ufanista, ou seja, de exaltação da terra, no caso Brejo; Literatura panegírica, ou seja, em louvor a alguém, e Literatura autobiográfica. Já a literatura em verso, além de explorar os temas já citados, expõe uma subjetividade ou um lirismo muito Românticos, daquele romantismo da Segunda Geração, chamada, também, de Mal-do-século, como em Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, e etc.
O Soneto acima é um exemplo disso. Se você prestar atenção verá que o eu lírico é  alguém que sofre, que é assombrado e torturado. Mas não é de uma dor qualquer e sim de uma dor existencial que só é aliviada pela luz da inspiração. Aliviada e não curada. Veja só o primeiro terceto:


"O desprazer se afasta ao som da lira.

que me devolve a paz e que me eleva,

por mais certeira o golpe que me fira."


Quer dizer, algo continua ferindo-lhe apesar da paz trazida pela lira, ou seja, pela inspiração poética.
Para que servem a inspiração e a poesia que é seu fruto? Servem, não para vencer o assombro, a tortura, a dor existencial, mas para transcendê-los, afastando o desprazer trazido por elas e devolvendo a paz apesar do golpe certeiro.
Outra figura interessante usada pelo poeta é a antítese muito usada também na pintura: a luz e a sombra, e sua similar: o branco e o preto. Na primeira estrofe, o eu lírico diz que a inspiração que ele procura transforma o preto dos ais em riso branco; já no primeiro dístico da segunda estrofe ele diz que a cruz que  conserva, aclara um caminho todo escuro; e no último verso do segundo terceto, usa uma metáfora em que o artista no seu ato de criar é um jato de luz que, altivo, rompe a treva e nisto obtém a sua glória.
Podemos retirar, agora, os três termos que são como que o fio condutor e que dar sentido a todo texto: A inspiração, a cruz, e a glória da criação. Assim: O eu lírico, em meio ao sofrimento e a escuridão de sua existência, procura pela inspiração. O que ele leva nessa procura é a cruz (a fé) que como amuleto lhe mostra o caminho e lhe dá esperança e força para continuar; finalmente, ao chegar a inspiração, ele se lança para alcançar a glória da criação como um jato de luz rompendo a treva.
Então, não é bonito? A literatura é isso. Essa competência não só de criar uma forma bonita de se dizer algo, mas também de conseguir carregar de significação as palavras de tal maneira que elas se prestem à interpretação, à reflexão, à contemplação desses múltiplos significados. Agora volte ao soneto e o leia outra vez pensando nesse comentário que fizemos e você verá a diferença em relação à primeira leitura que você fez.

by: Pedro de Sousa Portela.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fenômeno e Consciência

Antes de começarmos a falar do tema proposto nesse texto, que está na área do conhecimento filosófico, gostaríamos de esclarecer que não é nossa intenção seguir rigorosamente esta ou aquela corrente de pensamento, ou nos deter neste ou naquele tratado filosófico, como Antropologia, Cosmologia, Metafísica, etc. O que queremos com os textos filosóficos que venhamos a postar aqui, é provocar o leitor para uma reflexão mais criteriosa sobre coisas que, apesar de serem bem elementares, são fundamentais na aquisição de um sentido mais profundo do mundo e de nós mesmos. Vamos nos esforçar para que os textos sejam bem acessíveis sem, no entanto, perder o teor filosófico.

E sobre o que falaremos hoje? Falaremos sobre fenômeno e consciência. Você já deve ter notado que uma das coisas que mais nos assusta é o caos, a desordem, a aleatoriedade. A procura pela ordem das coisas é tão natural em nós que tornou-se a base do nosso senso comum. O senso comum nada mais é que um hábito adquirido em nossa consciência de passar, automaticamente, da causa para o efeito. Anoiteceu: escurecerá; amanheceu: o sol nascerá; relampejou: trovejará; soltou a pedra: ela cairá; a água ao fogo: ferverá, e assim por diante. Este automatismo de nossa mente, advindo da experiência, é maravilhoso! Sem ele, cada fenômeno ao nosso redor teria um efeito inédito e nos encheria de surpresa pois nunca estaríamos esperando por um desfecho já conhecido. Isso, certamente, nos impossibilitaria de nos adequar ao meio. Fica poeticamente bonito dizer que é preciso viver cada momento de maneira única, como se fosse o último momento de nossas vidas; "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" (Renato Russo). Na prática, no entanto, isso não daria certo, pois o momento em que estou vivendo agora é o resultado de muitos outros que já vivi, dos hábitos e conhecimentos que adquiri, de uma rotina e uma ordem que imprimir ao meu dia-a-dia. Eu não conseguiria, nem que quisesse, desconectá-lo do passado nem deixar de projetá-lo para o futuro. Um momento totalmente desligado, seria um momento totalmente inconsciente, caótico, aleatório; e o que acontecesse nele não faria nenhum sentido.

Até aí, tudo bem, não é? Mas olha só, esse hábito da minha consciência de fazer ligações automáticas de causa e efeito, apesar de ser fundamental, pode trazer, por incrível que pareça, problemas terríveis para aquisição do próprio conhecimento. Porque veja bem, o hábito está na minha consciência e não no fenômeno. Eu me habituei a ver as pedras caírem ao serem soltas. Mas esse é um hábito meu e não das pedras. As pedras não têm hábitos! E se a pedra não caí ao ser solta? A trezentos quilômetros de distância da terra pode-se soltar uma pedra, e ela, ao invés de cair, flutuará. Hoje existem trens, pesando centenas de toneladas que correm flutuado sobre trilhos eletromagnéticos. Eles parecem soltos, mas não caem, apesar do peso. É preciso saber que meu entendimento pode está preso a um hábito, mas os fenômenos só se prendem a leis naturais e tais leis são objetivas, ou seja, não dependem da minha consciência para serem assim ou assado. O problema é que minha necessidade existencial de encontrar ordem nas coisas, tende  me fazer confundir o conteúdo de minha consciência, que pode está viciado pelo hábito, com as leis objetivas que regem os fenômenos.

Quando olhamos para a história da humanidade, vemos o quanto essa confusão causou problemas. Muitas pessoas foram perseguidas, ridicularizadas e até mortas por contradizer o senso comum de um grupo social. Vamos dar um exemplo bem conhecido a todos. Até a Idade Média ninguém colocava em dúvida que o sol despontava pela manhã no oriente e a partir daí ele iria traçar uma trajetória até pô-se no ocidente (inclusive a palavra ocidente, do latim occidere, significa morrer, desaparecer). Quando alguém ousou dizer que o sol não traçava trajetória nenhuma ao redor da terra, que a ordem era justamente o inverso disso, despertou a ira de todos. Giordano Bruno, um dos primeiros a ter tal atrevimento, foi queimado em praça pública no ano de 1600. Copérnico, Kepler e Galileu, que afirmaram o mesmo, não tiveram o mesmo destino, mas foram perseguidos e precisaram ter muita cautela para não morrer.

A história das ciências modernas nada mais é que a história da resistência a esse automatismo do senso comum. E o interessante é notar que, tanto os nossos hábitos mentais como as ciências, procuram a mesma coisa: a ordem por trás dos fenômenos, porque ordem é segurança e é tão bom está seguro, certo, tranquilo.

by: Pedro de Sousa Portela

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Top 8: Sintoma de decadência.

No Jornal Hoje de hoje, em meio a notícias de mais mortes nas penitenciarias brasileiras, houve uma discreta reportagem que me deixou pensativo. Tal reportagem dizia que as oito pessoas mais ricas do planeta detém uma riqueza equivalente a da metade da população mundial, que é cerca de 3 bilhões e seiscentos milhões de pessoas. Veja bem, só oito pessoas. Só incríveis oito pessoas!

Acho que não precisamos ser muito estudiosos ou experts para desconfiarmos que há algo muito errado no mundo capitalista. E , engraçado é que, ao final da reportagem, como para nos consolar, a repórter noticiou que os governos estavam estudando que medidas poderiam ser tomadas a fim de diminuir tamanha desigualdade social. Isso não pode ser sério, evidentemente, mas, mesmo que fosse e os governos encontrassem alguma solução, eles não poderiam aplicá-la. E não poderiam por uma simples realidade: Eles não têm poder para isso. Aliás, aqui está, justamente, o principal ponto no qual os críticos do capitalismo atacam. Os donos do dinheiro, também são, por muitas formas, os que mandam nos governos.

Apesar de a ideologia política do mundo Capitalista ser a democracia, não é isso que acontece na prática. O papel do Estado no atual sistema, não é governar em representação à população, como o sistema democrático dar a entender, mas, na verdade governa-se para atender aos interesses do grande capital. Os agentes desse capital não estão presos a este ou aquele país, mas flutuam como uma entidade onipresente, lucrando onde é possível lucrar, sem nenhum compromisso com as populações exploradas. Isso é o que explica o exorbitante crescimento e concentração de capital nas mãos de tão poucas pessoas, enquanto as populações amargam desemprego, recessão e pobreza em geral.

Quando o Socialismo perdeu força no Leste Europeu e a URSS se esfacelou, muita gente achou ser uma prova de que o Capitalismo era um sistema melhor, aliás, o único bom e viável. Hoje, a opinião é de que a queda de um não comprova a bondade do outro. Na verdade os dois sistemas não passam de formas diferentes de exploração do homem sobre seu semelhante. E, se um sistema sobreviveu ao outro, foi simplesmente por aplicar mecanismos mais eficientes de contenção e anulação das forças políticas e sociais que o criticam e se opõem a tal sistema.
O problema é saber até onde e até quando tais mecanismos funcionarão. Daí, o porque de a notícia do Jornal, apesar de passar quase despercebida, ser tão sintomática. Ela expõe o calcanhar de Aquiles do Capitalismo, a sua deformidade congênita que é a busca irracional pelo lucro, pela acumulação e concentração descontrolada de capital e de bens de produção.

Os meios de comunicação, aliados do poder financeiro, tentam de todas as formas demonstrar que estamos no caminho certo, que problemas há, mas que tudo pode ser solucionado. Que o brasileiro sabe enfrentar qualquer crise. Que  um professor, se não lhe for possível viver com seu salário, ele pode ir vender coco gelado na rua, se também não der certo, ele pode ser gari, não dando certo, pode fazer uma horta, e etc. O importante é que ninguém morre só porque está lascado! O governo, outro que tem que apresentar  desculpas à população e explicar porque se deve trabalhar para os ricos manterem suas margens de lucro, diz que a culpa foi dos governos anteriores, mas que agora é só uma questão de reformar as coisas, e que, embora tenhamos que apertar mais o cinto, será por pouco tempo. Com noventa anos você se aposenta e será só curtição.

Quanto a mim, não me interesso que os ricos sejam ricos ou que deixem de sê-lo, mas fico pensando até quando esse sistema político e econômico vai ter forças para manter o equilíbrio social. E quando ele entrar em colapso e começarem as convulsões, certamente os mais fracos é que sofrerão mais. A história está aí para provar isso. Querem um exemplo? A Reforma Protestante!

Quando a maioria dos príncipes alemães apoiou Lutero em sua reforma religiosa, os camponeses ficaram muito contentes, não porque deixariam de ser católicos, mas porque não aguentavam mais pagar a pesada carga tributária imposta pelo sistema romano. Pensavam que seria menos um na extensa lista de imposto que precisavam pagar, afinal pagavam impostos aos príncipes, ao imperador, ao exército... Acontece que o imperador e os príncipes não tinham intenção nenhuma de aliviar carga tributária de ninguém. Eles queriam livrar-se do papa apenas para desviar para seus próprios bolsos o dinheiro dos impostos que mandavam para Roma. Mas, de inicio, não disseram nada, deixaram os pobres sonhar, afinal precisavam do apoio de todo mundo para implantar a reforma. Foi, então que apareceu um tal de Thomas Muntzer que, ao invés de ficar só sonhando, organizou todos os pobres e camponeses em um grande movimento chamado Anabatismo, e começou a pregar, não só uma reforma religiosa, mas uma reforma social; começou a pregar um cristianismo no qual não haveria nem ricos nem pobres, mas um igualitarismo radical. Então os príncipes viram que era hora de acabar com a festa, que já se estava indo longe demais. Prenderam, torturam e mataram Thomas Muntzer e outros líderes Anabatistas; fizeram guerra aos camponeses e os massacraram matando milhares de cetenas deles. Lutero, apesar de assistir a isso com desgosto, teve de recolher-se e não interferir, afinal sem o apoio dos príncipes sua reforma iria por água abaixo também. Então, houve mudança de sistema na Alemanha? Houve! Mas, quem lucrou com isso? Os pobres? Certamente que não! Pelo contrário, sua situação piorou e muito! É por isso que hoje, ao ver o sistema Capitalista mostrar sinais de decadência, não fico muito animado, afinal, se ele cair - e uma hora irá cair- cairá na cabeça dos mais fracos, isso pode apostar!


domingo, 15 de janeiro de 2017

Educação e Consciência

Qual de nós ainda não foi vítima de algum palestrante que começa seu discurso falando ser preciso formar cidadãos conscientes e críticos? Que o objetivo da educação é esse: Formar cidadão consciente e crítico. Esse é certamente o maior chavão que corre solto em tudo  quanto é reunião, encontro, palestra que se refere à educação. Para mim, ele é a senha para eu começar a cochilar na reunião.
Não é que haja algo de errado com a proposição em si. O problema é que, de tanto ela ser repetida fora de seu ambiente natural, ou seja, sem que se faça referência a base teórica que lhe dá sustentação ou sentido, ela se esvaziou, se erodiu. Tornou-se uma frase oca, ou como se diz, uma frase de efeito sem efeito algum.
Onde está, então, a  base teórica que poderia preencher de sentido tal ditado? Está em Paulo Freire, é claro! Pois, então, deveria ser fácil, afinal, o pensamento de Paulo Freire é como arroz e feijão, conhecidíssimo! Só que não! Primeiro porque o chão no qual trabalha Paulo Freire é o Marxismo. Sem um conhecimento profundo de Marx, derrapamos em Freire. Embora haja, evidentemente muitas diferenças entres eles também.
Bem, então vamos ver se o nosso chavão tem futuro. Primeiro é preciso saber que, tanto para Marx como para Freire, nossa humanidade não é algo que recebemos assim prontinha das mãos de um criador, mas algo que precisa ser construído durante toda vida e essa é, certamente, a principal tarefa de cada pessoa: humanizar-se. A humanização acontece por um processo de Conscientização. E como acontece essa conscientização? Vou dar um exemplo: Imagine um hominídeo, ou homem pré-histórico, como se diz, e um macaco. Os dois estão juntos, próximos a pés de coco muito altos. Eles têm um problema: estão com fome e gostariam muito de comer os cocos, mas precisam colhê-los. O macaco está melhor equipado fisicamente para essa tarefa: os braços longos, os pés com o formado de mãos, o rabo ajudando no equilíbrio, enfim, o macaco, sabemos é uma verdadeira máquina de subir em árvores, mas o homem não. Ele tem mais dificuldades. E quando, depois de meia hora de luta, o homem, todo ralado, chegar com o seu coco, o macaco já terá comido três, no que concluímos que, o macaco aparentemente tem uma vantagem sobre o homem. Mas acontece algo no homem que não acontece no macaco. O homem é capaz de avaliar sua ação, refletir sobre ela, criticá-la. E mais que isso! Ele pode simular internamente formas modificadas, melhoradas em relação a ação anterior que ele tentará colocar em prática na ação posterior. É esse mecanismo, aparentemente simples que faz com que sejamos o que somos hoje, enquanto os macacos continuam sendo o que sempre foram. E, se algum dia, na história da evolução fomos não humanos, passamos a ter a capacidade de sê-lo justamente no momento em que esse dinamismo apareceu. Conscientização é, portanto, essa relação dialética entre ação e reflexão, entre a prática e o pensamento sobre essa prática. É por isso que Marx criticava tanto as linhas de produção das fábricas, nas quais os trabalhadores exerciam tarefas sem compreendê-las e sem refletir sobre elas. Toda vez que alguém exerce um trabalho e não tem a oportunidade ou capacidade de refletir sobre ele, esse alguém deixa de ser humano, coisifica-se.
A educação torna-se  fator de humanização no momento em que ajuda a pessoa a conscientizar-se, ou seja, refletir sobre a sua própria prática e sobre a situação concreta do meio em que vive.
Então, quando alguém vier com o chavão, de que a educação precisa formar cidadãos conscientes, pense que conscientizar-se é humanizar-se e humanizar-se é refletir sobre o que se está fazendo, justamente o contrário de um chavão que é  falar por falar, sem refletir.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Formação de Professores: Alternativas.


Todos nós, professores, sabemos que iniciamos sempre o ano letivo com as chamadas semanas pedagógicas. Muitos professores não gostam. Dizem que não há nada de novo, que já sabem de cor o conteúdo das tais semanas, que é só enrolação, etc. Quanto a mim, o ponto ruim delas está no fato de que com elas as férias acabam e vou ter que me reestruturar para começar a luta de novo! No entanto, sem entrar no mérito das críticas acima, temos que admitir que este é o único momento em que todos da rede escolar nos encontramos,conversamos e acabamos, até, às vezes, inconscientemente, trocando ideias e experiências didáticas e pedagógicas. Falamos entre nós de nossas angústias e dificuldades intra e extra classe e contamos nossas projeções para o ano letivo que inicia. Para mim, isso já é um grande legado de tais semanas, que às vezes não chega a ser mesmo uma semana, mas três ou quatro dias.
O assunto das semanas pedagógicas traz, evidentemente, a questão da formação dos professores. Essa semana, Cláudia Costin, uma colunista da Folha de São Paulo, postou os resultados de uma palestra de um professor de Havard, Thomas Kane, na qual o dito professor afirmava que "parte dos recursos investidos em formação continuada de professores, em vários países, é desperdiçada". Segundo ele, investimentos em cursos motivacionais, mestrados, e doutorados, não estariam causando impacto nenhum na melhoria da qualidade do ensino. Ele aponta, no entanto, três ações que, de forma mais eficiente poderiam, segundo ele, contribuir para melhorar a qualidade do ensino público. Seriam elas: primeiro, mentoria de professores por colegas mais experientes; segundo, um trabalho colaborativo entre docentes de uma mesma escola; e a terceira ação seria um bom uso do estágio probatório como complementação da formação universitária do professor. 
Para falar a verdade, achei a ideia de um professor mais velho tutoriar professores novos muito interessante! Porque, veja bem, ensinar não é só uma questão de conhecer os conteúdos e as didáticas de aplicação, mas existe uma atividade relacional e de interação com os alunos que também é importante e que só a experiência de muito tempo de trabalho vai capacitar o professor nessa tarefa. Os professores novos sofrem muito com isso e se sentem totalmente desamparados em seu trabalho quando são simplesmente "jogados" em uma sala sem o apoio de alguém experiente. Quem já teve um estagiário em sua sala, sabe do que estou falando. Nota-se que a aula dele está planejada nos mínimos detalhes, mas isso não resolve o problema completamente. Sem um bom relacionamento com os alunos, o professor acaba por desenvolver mecanismos de defesa como o autoritarismo e o distanciamento que são altamente prejudiciais à aprendizagem. Ou pode acontecer o que é pior ainda, o professor, frustrado por não se relacionar bem com a turma desenvolver uma baixa auto-estima que o fará detestar a sala de aula e, como resultado, deixar o magistério, ou continuar nele sem gosto nenhum, simplesmente por falta de opção. Então, que tal professores com vinte ou vinte e cinco anos de magistério, serem renumerados para completar sua carreira docente ajudando os jovens professores?
A segunda ação formadora de professores apontada por Thomas Kane também é pertinente porque, vejam só, nenhum professor, diretor ou coordenador pedagógico, por mais eficiente que seja seu trabalho, vai mudar sozinho a realidade de sua escola. É necessário, portanto, o trabalho de colaboração entre os professores. Nós professores, ao invés de, simplesmente taxarmos nossas salas e nossos alunos de serem assim ou assado, deveríamos, planejar, estudar e pesquisar de forma mais cientifica sobre os problemas reais da escola. Nossos alunos deveriam ser matéria prima para nossas pesquisas pedagógicas a fim de aperfeiçoarmos nosso trabalho com eles. Um grupo de professores que também fossem um grupo de pesquisadores, trabalhando em colaboração um com o outro para entender cada vez melhor os problemas e as soluções mais adequadas para sua escola.
Quanto ao estágio probatório, nós sabemos a que ele se resume. Na rede estadual, por exemplo, consiste apenas em uma questionário que o diretor preenche dando uma nota ao professor recém-admitido. Enquanto que ele deveria constituir-se em um itinerário formativo claro e personalizado,como diz Thomas Kane, no qual o professor recebesse uma capacitação estruturada naquilo em que ele realmente vai precisar para para um bom exercício do seu magistério.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Literatura brejense: Para quê e para quem?

Literatura brejense: Para quê e para quem?


Há alguns anos estava eu em São Luis e ao passar por um Sebo chamado Educare (sebo é um local onde, entre outras coisas, se revendem livros velhos e usados), fiquei surpreso e contente ao ver o livro de um escritor brejense. O livro era Meus Ais de Eugênio de Freitas. Comprei-o e, ao voltar, li-o no ônibus. É um livro de trovas e sonetos. Alguns deles, simples e singelos nas imagens e motivos, outros, mais elaborados nos conteúdos e imagens que sugerem. Percebi o enorme esforço do autor em imitar as formas requeridas pelos gêneros Literários. O Livro é de 1973, ano de sua publicação, e o exemplar que encontrei no sebo, está até autografado pelo autor para Edmilson José da Silva, a quem ele chama de "prezado colega" e a quem , evidentemente, eu não tenho a menor ideia de quem seja ou quem seria. De qualquer maneira, o "prezado colega" acabou por descartar o livro autografado em um Sebo para minha alegria e satisfação!
Como professor, no entanto, fico pensando se a literatura produzida por autores brejenses não deveria ter um espaço na grade curricular de nossos jovens e adolescentes. Porque houve e há, sim, escritores brejenses! Nós queremos que nossos alunos sejam leitores e até escritores, mas, o que é um escritor para tal aluno? Certamente, alguém que nasceu no século XIX no Rio de Janeiro e que escreveu livros que o dito aluno  precisa, no máximo, decorar o título para passar na prova. Isso é o que é um escritor para nossos jovens! Será que não seria um estímulo decisivo se o escritor fosse alguém mais próximo, e por isso mesmo, mais real? Não seria bom que nossos jovens pudessem ler livros de pessoas com as quais eles  cruzam nas ruas ou de quem eles já tivessem assistido uma palestra?
É verdade que não devemos prescindir dos autores e livros clássicos nacionais e até internacionais. É muita pobreza não conhecer Machado de Assis ou Graciliano Ramos. Não ler Crime e Castigo de Dostiévski ou A Boa Terra de Pearl Buck é uma pena! Mas será que,  para um brejense, não ler e nem mesmo conhecer Eugênio de Freitas ou Tobias Pinheiro, também não é?
Alguém pode dizer: "Professor, mas a literatura brejense é quase nada! Não tem expressividade nem projeção nenhuma!" E eu lhe pergunto: Você já leu? Todo prestígio de uma literatura depende dos leitores. Se ninguém houvesse lido os livros de Machado de Assis, o que seria da literatura Machadiana? Talvez nem existisse! Toda literatura vive do leitor, da crítica e do trabalho editorial, sem isso, qualquer literatura míngua. Onde estão os leitores, os críticos e os projetos editoriais da literatura brejense? Se não há nenhum desses três aspectos, como vamos querer uma literatura próspera? E, se não lemos nem a literatura minguada que existe, para que quereríamos uma literatura abundante? Para encher estantes?
Verdade é que nossos jovens e adolescentes não conseguem avançar nos estudos por falta de leitura. Perdem seu precioso tempo fazendo atividades com pouco significado para eles e o país gasta dinheiro inutilmente sustentando um sistema escolar infrutífero.

By: Pedro de Sousa Portela.