Nós estamos acostumados a ligar a figura de Freud e os frutos de seu trabalho, a Psicanálise, à área dos procedimentos clínicos, aos transtornos psicológicos e às técnicas e terapias de livre associação de ideias, etc. No entanto, existe uma grande implicação pedagógica nos estudos freudianos que, desde muito tempo, têm chamado atenção dos estudiosos.
Quando eu era estudante de filosofia, em Brasília, na década de 90, alguns monges Beneditinos estudavam em minha sala, e eu tornei-me bastante amigo deles. Então, um dia, fui convidado por eles a participar de um grupo de estudo que acontecia todo sábado, à tarde, no mosteiro que ficava e ainda fica, a uns quinhentos metros do seminário em que eu morava. Fui e, para minha surpresa, estava-se a estudar Freud. Minha surpresa se explica, pelo fato de a Igreja Católica ter tido sempre uma certa desconfiança em relação à Freud e à Psicanálise. E não é sem razão, uma vez que Freud, em suas teorias, tentou demonstrar a necessidade de se superar a religião, que foi qualificada por ele como uma espécie de neurose coletiva, provocada pela consciência que temos de nossa inexorável finitude, ou seja, a incapacidade que nossa consciência tem de lidar com a certeza de que vamos morrer, causa em nós um transtorno. Tal transtorno, segundo Freud, estaria na origem do sentimento religioso. Em outras palavras, a religião, para Freud seria só um sintoma de um transtorno psicológico e que a Psicanálise poderia curá-lo perfeitamente. Inclusive ele escreveu um livro: O Futuro de uma Ilusão, no qual, tal tese é desenvolvida. Evidentemente que a Igreja Católica não gostou nada desse livro, tanto que, por um bom tempo, proibiu que ele fosse lido nos seminários de formação do clero.
Bem, mas eu estava dizendo então, que os monges de Brasília, na década de 90, não só liam como faziam grupos de estudos para debater as teorias freudianas, e contava tal história para dizer que foi em tais grupos que percebi, pela primeira vez, a importância da Psicanálise para a educação.
Freud não escreveu textos relacionados diretamente à educação, mas sabe-se que ele conhecia bem o impacto de suas teorias nesse campo, tanto que deixa à Melanie Klein e à Anna Freud, sua filha, o encargo de aplicar os resultados de seu modelo metapsicológico ao campo da educação.
E em que a Psicanálise se aplica à educação? Ora, em muitos pontos! Podemos citar, por alto, a teoria das fases da criança; o conceito de sedução precoce; a ideia da sexualidade infantil; o complexo de Édipo; enfim, é difícil se encontrar um texto em Freud que não faça uma referência à infância e que, embora indiretamente, não tenha uma aplicação à educação.
Mas, aqui, não vamos nos deter em nenhum desses pontos especificamente, senão que, vamos nos deter em sua tese principal sobre o ser humano e que tem a ver com o principio do prazer e o principio da realidade, sua noção de liberdade, amor próprio e educabilidade.
Vamos partir da seguinte premissa: Todo nosso aparelho psíquico está regido, regulado, pelo princípio do prazer. O que isso quer dizer? Quer dizer que, nossas ações, nossos sentimentos, nosso pensamento, enfim, tudo que estrutura nossa subjetividade, encontra seu ponto de equilíbrio na busca do prazer e na evitação do desprazer. Por via de regra, ninguém quer o mal, o ruim, o pior, etc. Em seus Ensaios de Psicanálise Aplicada Freud diz:
"Aparentemente, o conjunto do nosso aparelho psíquico tem o propósito de procurar o prazer e evitar o desprazer; ele é regido, automaticamente pelo princípio do prazer" (FREUD, 1993, p. 13).
E em outro livro seu, intitulado O mal-estar da civilização, ele diz:
"Os homens querem ser felizes e assim permanecer. Essa aspiração tem duas faces, um propósito negativo e um propósito positivo: de um lado evitar a dor e do outro buscar um gozo intenso." (FREUD, 1971, p. 20)
Freud observa que a interdição persistente e sistemática dessa inclinação natural ao prazer é a causa de todas as neuroses e transtornos psicológicos aos quais uma pessoa possa ser acometida. Partindo-se disso, poderia se pensar que uma educação para ser autêntica, deveria reconhecer e curvar-se a esse princípio regulador que é o prazer. Uma educação que frustrasse a realização do prazer do indivíduo, seria no mínimo patológica, uma vez que estaria promovendo todo tipo de neurose e até psicoses no educando. A pedagogia deveria encontrar uma forma de evitar qualquer tipo de frustração e repressão e promover uma harmonia espontânea dos prazeres e dos desejos inter-humanos. E, afinal, não é isso o que tem proposto pelo menos boa parte dos nossos pedagogos?
Mas Freud não acredita nessa hipótese. E por quê? Porque, para ele, é impossível conceber uma educação não repressiva e apoiada unicamente no princípio do prazer, e isso por múltiplas causas que passamos a enumerar agora: primeiro, o principio do prazer não pode se constituir em um objetivo, porque ele sempre acontece em uma situação de desequilíbrio e tensão progressiva. Por exemplo, o prazer de comer acontece em quem está com fome. A fome é uma situação de desequilíbrio e de tensão pela qual está passando o organismo. Quando o indivíduo procura o alimento, na verdade ele está procurando restabelecer esse equilíbrio no organismo. Uma vez reequilibrado, passa a fome e com ela vai-se também o prazer de comer. A pessoa pode até continuar comendo depois de saciado, mas isso não lhe trará mais prazer nenhum. Isso é o que chamamos de "insuficiência interna do princípio do prazer". Sobre isso, Freud diz:
"O que se nomeia por felicidade, em sentido mais estrito, é resultado de uma satisfação repentina de necessidades que alcançaram alta-tensão e que, por sua própria natureza, só é possível sob a forma de fenômeno episódico. Toda persistência desse estado pelo princípio do prazer gera apenas um bem está um tanto superficial... Dessa maneira, nossas faculdades de felicidade estão limitadas pela nossa constituição". (idem, pp.20 e 21).
Fica claro, portanto que não podemos colocar o prazer como principio sobre o qual se deva edificar a educação de alguém pois, devido sua instabilidade e desequilíbrio estruturais, uma civilização não pode se sustentar. Bem, agora chegamos a um dilema: Se oferecermos uma educação ao indivíduo frustrando-lhe ou inibindo suas pulsões naturais para o prazer, podemos desequilibrá-lo psicologicamente e torná-lo um neurótico; no entanto, se, em nosso ato de educar, não houver qualquer limitação, ou barreira que impeça o indivíduo de realizar livremente seus impulsos, não poderemos construir uma sociedade. Ou seja, se, ao principio do prazer, não opusermos o principio da realidade, não poderemos construir uma civilização equilibrada. O que se deve fazer, então?
A isso, Freud responde ser um falso dilema, uma vez que não há contradição nenhuma entre o princípio do prazer, que estrutura a psicologia humana e o principio da realidade que estrutura a civilização. E por quê? Porque o principio da realidade não é algo que está aí para acabar com o prazer, mas para regulá-lo e tornar inclusive sua realização mais viável e segura. Numa sociedade em que se estabelecesse só o principio do prazer, logo entraria em colapso e caos, gerando o assassinato, a dor e a destruição que são opostos ao prazer, ou seja, numa sociedade do prazer não pode haver prazer nenhum.
Vamos ver então, um exemplo: Esses dias, a policia militar do Espirito Santo recolheu-se nos quartéis, deixando de fazer seu trabalho que é inibir o crime. Logo começaram os assassinatos, os saques às lojas e o vandalismo em geral, o que gerou na população o medo e a insegurança. Mas será que não seria bom sem a polícia? Nós poderíamos pegar o que quiséssemos nas lojas e shoppings e simplesmente levar para casa; poderíamos nos armar e impor nossa vontade nas ruas, submetendo os desarmados ao nosso bel-prazer! No entanto, está muito claro que isso não pode acontecer. Que a falência do Estado implicaria na destruição inclusive daqueles que o destroem.
Parece ficar provado com isso, que a interdição, o limite, a lei devem funcionar, não como algo oposto ao gozo, mas para a própria garantia desse. Mas fica então, uma última questão no ar, se voltarmos ao exemplo no caso do Estado do Espirito Santo: Por que apenas uma pequena parcela da população praticou crimes como saques, roubos e etc.? Se o principio da realidade, representado pela polícia, estava suspenso, por que o principio do prazer não tomou conta de todos, mas apenas de alguns? Aqui é que entra um outro conceito importante na teoria de Freud: a Educabilidade. A Educabilidade nada mais é que a faculdade que todo indivíduo tem de internalizar o principio da realidade. Porque podemos pensar que, enquanto o principio do prazer é algo interior ao sujeito, o principio da realidade seja algo que venha de fora, que se impõe ao sujeito. E seria realmente assim se não houvesse educabilidade, ou seja se não fosse possível que a lei se tornasse algo radicado na própria subjetividade do sujeito, de tal modo que ele não obedeça uma lei, só porque lhe foi imposta de fora, mas por uma tomada de consciência interna. Exemplo: Você sempre mandou seu filho encher com água as jarras que estão secas e colocá-las na geladeira. Isso, em um primeiro momento, é tomado como uma imposição externa regida pelo principio da realidade. No entanto, nem sempre será assim, pois chegará o momento que seu filho, ao ver as jarras vazias, as encherá, não porque você repetiu a ordem, mas porque esta ordem estará internalizada, tornando-se uma necessidade interna do seu equilíbrio psicológico. Seu filho, ao ver as jarras vazias será tomado por um desconforto, um desequilíbrio psicológico que será superado somente pela execução da tarefa e do dever internalizado. Isso quer dizer que, educamos não só porque somos capazes de educar, mas porque as pessoas são capazes de serem educadas. Senão seria necessário repetir a mesma ordem a alguém ad aeternum.
Podemos, então voltar, e responder porque nem todo mundo saiu às ruas de Vitória do Espírito Santo para roubar e saquear, embora não houvesse polícia nas ruas. Porque, embora faltasse a lei imposta exteriormente pelo Estado de Direito, ela continuou a existir em todos aqueles que, por um processo educacional levado a cabo ou pela família, ou pela escola, ou pela Igreja, e etc., a tinham internalizado, de modo que, se perguntássemos a Freud, qual o papel da educação, ele diria que consiste na viabilização desse processo de internalização do principio da realidade no sujeito.
É claro que para Freud isso é possível não por um altruísmo do educando, ou por qualidades espirituais que ele possa ter, mas como uma necessidade egoística, ou narcisista de adaptação à realidade, ou seja, uma espécie de amor próprio em que sujeito troca a capacidade de realizar seus instintos primitivos e caóticos, sem segurança nenhuma, para desfrutar de um prazer socializado que é limitado, mas seguro e duradouro.
by: Pedro de Sousa Portela.
As fontes citadas no texto foram:
FREUD, S. Essais de Psychanalyses Appliqée, Paris, Gallimard, 1993.
FREUD, S. O mal-estar da civilização, Paris, PUF., 1971.