Qual de nós ainda não foi vítima de algum palestrante que começa seu discurso falando ser preciso formar cidadãos conscientes e críticos? Que o objetivo da educação é esse: Formar cidadão consciente e crítico. Esse é certamente o maior chavão que corre solto em tudo quanto é reunião, encontro, palestra que se refere à educação. Para mim, ele é a senha para eu começar a cochilar na reunião.
Não é que haja algo de errado com a proposição em si. O problema é que, de tanto ela ser repetida fora de seu ambiente natural, ou seja, sem que se faça referência a base teórica que lhe dá sustentação ou sentido, ela se esvaziou, se erodiu. Tornou-se uma frase oca, ou como se diz, uma frase de efeito sem efeito algum.
Onde está, então, a base teórica que poderia preencher de sentido tal ditado? Está em Paulo Freire, é claro! Pois, então, deveria ser fácil, afinal, o pensamento de Paulo Freire é como arroz e feijão, conhecidíssimo! Só que não! Primeiro porque o chão no qual trabalha Paulo Freire é o Marxismo. Sem um conhecimento profundo de Marx, derrapamos em Freire. Embora haja, evidentemente muitas diferenças entres eles também.
Bem, então vamos ver se o nosso chavão tem futuro. Primeiro é preciso saber que, tanto para Marx como para Freire, nossa humanidade não é algo que recebemos assim prontinha das mãos de um criador, mas algo que precisa ser construído durante toda vida e essa é, certamente, a principal tarefa de cada pessoa: humanizar-se. A humanização acontece por um processo de Conscientização. E como acontece essa conscientização? Vou dar um exemplo: Imagine um hominídeo, ou homem pré-histórico, como se diz, e um macaco. Os dois estão juntos, próximos a pés de coco muito altos. Eles têm um problema: estão com fome e gostariam muito de comer os cocos, mas precisam colhê-los. O macaco está melhor equipado fisicamente para essa tarefa: os braços longos, os pés com o formado de mãos, o rabo ajudando no equilíbrio, enfim, o macaco, sabemos é uma verdadeira máquina de subir em árvores, mas o homem não. Ele tem mais dificuldades. E quando, depois de meia hora de luta, o homem, todo ralado, chegar com o seu coco, o macaco já terá comido três, no que concluímos que, o macaco aparentemente tem uma vantagem sobre o homem. Mas acontece algo no homem que não acontece no macaco. O homem é capaz de avaliar sua ação, refletir sobre ela, criticá-la. E mais que isso! Ele pode simular internamente formas modificadas, melhoradas em relação a ação anterior que ele tentará colocar em prática na ação posterior. É esse mecanismo, aparentemente simples que faz com que sejamos o que somos hoje, enquanto os macacos continuam sendo o que sempre foram. E, se algum dia, na história da evolução fomos não humanos, passamos a ter a capacidade de sê-lo justamente no momento em que esse dinamismo apareceu. Conscientização é, portanto, essa relação dialética entre ação e reflexão, entre a prática e o pensamento sobre essa prática. É por isso que Marx criticava tanto as linhas de produção das fábricas, nas quais os trabalhadores exerciam tarefas sem compreendê-las e sem refletir sobre elas. Toda vez que alguém exerce um trabalho e não tem a oportunidade ou capacidade de refletir sobre ele, esse alguém deixa de ser humano, coisifica-se.
A educação torna-se fator de humanização no momento em que ajuda a pessoa a conscientizar-se, ou seja, refletir sobre a sua própria prática e sobre a situação concreta do meio em que vive.
Então, quando alguém vier com o chavão, de que a educação precisa formar cidadãos conscientes, pense que conscientizar-se é humanizar-se e humanizar-se é refletir sobre o que se está fazendo, justamente o contrário de um chavão que é falar por falar, sem refletir.

Problema que até alguns professores estão perdendo a capacidade de refletir e a partir dessa reflexão passar para o aluno e ensinamento de conscientização
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ResponderExcluirPois é, João Batista, ninguém está excluído da tarefa de conscientizar-se, humanizar-se, muito menos os professores que, além de tudo, devem ajudar os outros nessa tarefa
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